A Casa da Chácara



A Casa da Chácara

A casa da chácara era muito mais que uma simples edificação, foi um símbolo para várias gerações que a conheceram. Por longas estadias ou por alguns momentos, a casa marcou as vidas daqueles que passaram por lá.

Seu tamanho transcendia o espaço físico que ela ocupava, seria impossível explicar em palavras, nem se eu soubesse, tudo o que ela significou desde sua construção lá pelos idos de 1930.

A casa tinha parede de tijolos dobrados, com portas e janelas azuis de vidros coloridos. Sua estrutura sólida feita de pedras, cimento e madeira escondiam passagens, que só as crianças conheciam. Eram verdadeiras cavernas que abrigavam nossas brincadeiras e fantasias.

A natureza verde que cercava a casa era esplendorosa. Na frente tinha o jardim de flores delicadas e um frondoso pé de caju, que dava a sombra e refrescava a varanda. Ainda por ali, tinha muitas árvores cheias de vida e pássaros e ainda um velho tipo de coqueiro que escondiam muitos morcegos.

Do outro lado tinha a horta: uma mangueira grande era o centro do lugar onde se cultivava pequenas hortaliças e várias plantas medicinais usadas em receitas caseiras.

Por dentro sete quartos, três salas e um mobiliário antigo compunham o lugar. Para cada cômodo uma história diferente, para cada história um personagem a se destacar.

São nessas pessoas que estão os verdadeiros valores desta casa, moradores e visitantes. O convívio entre as partes gerava tal fraternidade, que me fazia pensar estar em um lugar perfeito. Era um lugar de encontros e não de despedidas.

Lá as pessoas tinham tempo para passar, a pressa era deixada no portão. Ao se recostar numa cadeira a conversa vinha fácil, sempre se tinha uma notícia, uma prosa, um sorriso e um bem querer feito por pessoas simples da velha Cachoeiro.

A casa teve poucos e verdadeiros donos e quando eles se foram ela ruiu de saudades e sucumbiu aos homens que não conheceram ou não reconheceram a sua história.

O endereço rua Treze de Maio, 35 não existe mais. Mudaram o nome da rua e o trem não passa mais por lá. Feliz quem subiu aquelas escadas, ouviu o ruidoso barulho da porta da sala se abrindo, caminhou no assoalho de tábuas corridas, tomou café no grande banco da cozinha, dormiu num colchão de molas em um dos seus rústicos quartos e ouviu a chuva correr no telhado e formar bicas que pareciam cachoeiras.

Sentiu o cheiro da poeira e da madeira antiga, sentou para ver televisão na sala e procurou algum livro na estante repleta de títulos. Mas, feliz mesmo foi quem brincou de pique a noite dentro da casa e se escondeu em um de seus inúmeros cantos ou debaixo de alguma cama. Lavou a mão na pia de aço que ficava naquela sala do meio e abriu um dos gavetões pesados desta mesma sala, para procurar alguma coisa.

Para quem tem estas ou outras lembranças, a casa sempre existirá, assim como seus moradores. O vento que soprava por lá, soprará para sempre nos corações de quem a amava.

Marco Aurélio Moraes Rettore
Vitória, 01 de Julho de 2017

Comentários

  1. Parece que estou dentro da casa da chácara, mas teria que ser no local mais fresco da casa... na cozinha talvez???

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