A Casa do Morro de Santo Antônio
A casa do Morro de
Santo Antônio
Férias significavam estar em Cachoeiro, até aos 12 anos o a
minha área de livre trânsito se limitava entre as casas de meus avós, a casa da
Chácara no Guandú, logo no início da linha do Rio, e a casa do Morro de Santo Antônio.
Eram dois os trajetos que as ligavam: um pela rua Bernardo Horta e outro, que
acredito não mais existir, pela rua Amazonas.
Para chegar à casa dos Rettore passava-se em frente fábrica
de tecidos e também pelo antigo laticínio. A subida do morro de Santo Antônio
era íngreme, mas facilmente vencida pelos nossos corpos esguios e corações
jovens. No meio da ladeira de paralelepípedos e, em frente a uma das portas do
Centro de Saúde, estava a casa.
Fincada em uma esquina, a rua lateral por vezes nos servia
de área de lazer, mas era dentro da grande casa onde vivíamos os bons momentos
de nossa infância. Quando a conheci, já havido sido dividida em três. Duas
delas alugadas e a maior onde morava a vovó.
Na entrada, o portão de ferro rangia forte e era muito
difícil de fechar, a escada nos levava ao jardim e a uma estreita varanda que,
por muitas vezes, foi palco de brincadeiras e muito futebol.
O primo Luciano era quem melhor conhecia o lugar, ele
dividia sua moradia entre a casa do morro e a de seus pais, às vezes nos
encontrávamos por lá e nos perdíamos em conversas de esquecer a hora de dormir.
Quando os primos de Niterói chegavam e se uniam aos de
Cachoeiro era festa no lugar. O piso de tábua de madeira encerada rugia a nossa
correria, a bagunça era forte apesar das ralhadas severas da vovó. Ela tinha
espírito forte e não admitia certos comportamentos mais exaltados.
Lembro-me também das coisas antigas guardadas dentro da
velha cristaleira e armários, as revistas antigas sobre futebol eram as minhas
favoritas. Nelas continham os desenhos dos gols das partidas dos times do Rio
de Janeiro. Eu admirava estas gravuras e, principalmente, as que reportavam as
vitórias do meu Fluminense. Pena eu não ter guardado nenhum exemplar.
Mais uma escada no final do corredor do jardim nos levava ao
terraço, que visão panorâmica tínhamos de lá. Boa parte da velha Cachoeiro era
vista: o Aquidabã, a casa da Chácara, o laticínio, a igreja de Santo Antônio, a
da Consolação, o rio Itapemirim e o Pico do Itabira, que limitava a cidade e
também o alcance de nossas visões.
Idealizada e construída pelo vovô Nilo, a casa orientou na
formação de seus filhos e netos, enriqueceu nossas infâncias com encontros
familiares e como símbolo de prosperidade. A casa não foi muito longe sem seus
donos. Hoje vive só na lembrança passageira destas mal escritas linhas, e
talvez, em alguns poucos corações ávidos por sua história.
Marco Aurélio Moraes
Rettore
31 de Julho de 2017
31 de Julho de 2017
Posso estar enganada, mas acredito que foi nesta casa que você descreve tão bem, que o seu tio Edson Rettori viveu parte de sua infância e cujas lembranças também o marcaram profundamente!
ResponderExcluir