As casuarinas da Praia da Costa
As casuarinas da Praia da Costa
A
certidão de nascimento de Vila Velha foi lavrada em 23 de maio de 1535, quando
por aqui desembarcou o donatário da capitania do Espírito Santo, o português
Vasco Fernandes Coutinho. Ele ancorou a sua nau entre os atuais Morro do Moreno
e o Morro do Convento. Neste lugar, desaguava um pequeno veio de água doce
vindo do interior.
Mas,
nossa história corre longe desta época de mata virgem e de índios livres. Claro
que tudo isso durou muito pouco, logo o lugar virou um inferno. Breve quatorze
anos depois de descoberta, a então capital capixaba foi abandonada a própria
sorte e todos se mudaram para ilha de Vitória.
A
história conta que a culpa foi dos índios, mas Vila Velha sempre foi carente de
bons administradores – e convenhamos, Vasco Coutinho e Luíza Grinalda, esposa e
herdeira da capitania, apesar de valentes e de boa vontade, não tiveram sucesso
em sua empreitada.
O tempo
passou e os anos trouxeram outras histórias. Em 1959, o prefeito era Tuffy
Nader, que contratou uma arborização para a Praia da Costa. Para uma época de
pouco desenvolvimento e nenhuma pegada ecológica, até achei a iniciativa
interessante.
Quem
mexia com este negócio de arborização, neste tempo era o senhor Fernando
Oliveira, que não tinha formação em engenharia, arquitetura ou paisagismo,
somente gostava de plantar arvores, assim... encheu a Praia da Costa de
casuarinas e castanheiras. As árvores, por sua vez, fizeram a sua parte
cresceram frondosas e embelezaram o local. Como se dizia antigamente, o homem
tinha mão boa.
Lembro-me
bem que o canteiro central da avenida Gil Veloso era repleto de casuarinas. Naquele
tempo era mão dupla, duas pistas para cada lado, mais o acostamento. Durante o
dia usávamos o tal canteiro para esconder o carro do sol, enquanto frequentávamos
a já badaladíssima praia. O espaço mais cobiçado era entre a Casa do Navio e o
quiosque da Kibom.
À noite,
as árvores tornavam-se cumplices de nossas aventuras amorosas, nos escondiam da
pouca luz que existia no lugar e ali vivemos os melhores amores da juventude.
No clausulo dos carros e nos braços da mulher amada, nossos corpos bronzeados
pelo sol eterno eram desnudos pelo amor.
As
casuarinas eram a segurança de nossa inocência e testemunhas caladas de
segredos impublicáveis. Elas guardavam incógnitas nossas identidades,
facilmente reveladas por nossos carros.
Papai
tinha um fusca verde azeitona, talvez o único na cidade. Um amigo tinha uma
Belina amarela, outro um Passat de 7 milhões e outro um Uno vermelho... eram uma
espécie de atestado de presença.
Os anos
90 trouxeram uma nova urbanização e as casuarinas foram identificadas como
árvores impróprias para a orla da cidade. Todas, sem deixar testemunhas, foram
extirpadas da Gil Veloso. Tenho a certeza que perdemos muito mais do que
árvores, parte de nossa geração foi expulsa de Vila Velha.
Não temos
mais os índios para culpar. Ao som do mar e do balanço do vento, as casuarinas
e castanheiras sopraram música por seus galhos. Seus frutos espetaram nossos
pés e marcaram os grandes amores de nossas vidas boêmias. O profundo silêncio
de nossos beijos foram selados pelos sons daquelas árvores.
Aquele
lugar foi único e marcou gerações. O certo é que ninguém mais conhecerá a nossa
Praia da Costa e irá namorar à sombra das casuarinas.
Vitória, 28 de outubro de 2017
Marco Aurélio Moraes Rettore
Marco Aurélio Moraes Rettore
As casuarinas faziam um som todo seu quando sacudidas pelo "vento sul", uma música própria, que só se ouvia ali.
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