Era uma vez Vila Velha
Era uma vez Vila
Velha
Era uma manhã nublada em Vila Velha, em um tempo de outono
ou primavera. Na areia branca da Praia da Costa poucos se aventuravam ao vento
frio, afinal, no início dos anos 70 a população da cidade girava no entorno de
apenas 100 mil habitantes.
Na orla poucos prédios e sim muitas casuarinas que
balançavam ao ritmo do vento sul que soprava naquele dia. No entorno das longas
árvores apenas seus espinhosos frutos secos de formato oval, que por vezes
machucavam os pés dos mais distraídos.
Papai havia nos levado para um passeio, acho que era sábado.
Eu e minha irmã corríamos livres pela praia e nos molhávamos na espuma branca
do mar que trovejava ondas fortes, estávamos num local onde era chamado de
arrebentação.
Nosso transporte oficial da época era uma bicicleta
vermelha, a barra circular da Monark. No bagageiro tinha uma linda almofada com
o escudo do Fluminense, meu lugar favorito para percorrer as ruas da velha Vila
Velha. O nosso meio de transporte era movido pela juventude de meu pai e pela
emoção de seus dois filhos. Esta bicicleta me acompanhou por mais de 25 anos.
Nossa casa em Jaburuna era grande, cada um tinha seu quarto,
no quintal tinha um lindo pé de romã, fruta que curava os males da garganta,
além de uma mangueira e uma parreira de uvas. No quintal existia espaço de
sobra para brincadeiras e minhas aventuras esportivas.
Esta casa ficava na Joaquim Freitas, rua ainda de terra e
cheia de buracos, que era palco para nossas peladas e porta de entrada para
chegada de nossos parentes. Muita receptiva, minha mãe gostava de receber para
uma conversa, um almoço e até para uma estadia mais longa. Na casa da Dona
Therezinha nunca faltava espaço para dormir e uma boa e simples refeição para
degustar. Ainda hoje me lembro das moquecas e do macarrão da mamãe.
Lembro-me bem das pessoas que passaram por lá e não poderia
citar o nome de todas, pois a lista seria interminável, mas a vovó Carmelita
foi alguém que me veio forte na memória. Juntos passávamos horas a jogar
cartas.
Vez por outra, eu e papai íamos ao estádio Engenheiro
Araripe assistir um jogo de futebol. Certa vez assisti o Fluminense de Rivelino
e Cafuringa, além de inúmeras partidas das decisões do campeonato capixaba.
Ainda hoje gosto de ver futebol e torcer pelo meu tricolor.
Hoje Vila Velha vive outro tempo e eu já não moro mais por
lá. São mais de 500 mil habitantes que enchem suas ruas e fazem em nome do
progresso a cidade perder sua ternura de outrora.
De minhas lembranças ficam os passeios a pé de braços dados
com minha mãe e as descobertas da vida apresentadas pelo meu pai. A formação
rica de família são valores que guardo em mim e procuro transformar em exemplos
para as futuras gerações. A família que morava na antiga Vila Velha, viverá
eternamente em meu coração.
Vitória, 30 de junho de 2017
Vila Velha, local onde comi a melhor muqueca à capixaba da minha vida, junto com alguns membros da família RETTORE (ou Rettori, como foi grafado o nome do meu marido na sua certidão de nascimento), é um local que me traz poucas, mas ótimas lembranças, algumas delas são as do casamento do autor das deliciosas crônicas aqui publicadas, com a GIOVANA.
ResponderExcluirDona Therezinha, Vovó Carmelita, Vovô Nilo, tio Caco, pessoas de Cchoeiro e Vila Velha, parentes que, entre outros, certamente merecerão delicadas crônicas deste "menino" querido.