Inverno em Cumuruxatiba



Inverno em Cumuruxatiba


Era manhã de inverno em Cumuru, mas o frio não passava por lá. A água rasa deixada pela maré baixa fazia da areia firme da praia um convite para caminhar. Os primeiros passos eram cuidadosos para fugir dos pequenos cacos de coral e pedaços de conchas que permeavam o lugar.

Ela vinha ao meu lado como tem feito nestes mais de 25 anos. Nossas mãos por vezes se tocavam e se entrelaçavam com a naturalidade de nossos sentimentos. Simples e honestos nossos passos espelham nosso jeito de ser.

Mais a frente a areia densa e molhada afundava nossos pés, a vida marinha em profusão brotava naquela praia de pouca gente e de grande contraste entre as marés. No final do percurso muitos corais e a falésia que limitam a praia do Rio do Peixe Grande, da ponta do Moreira.

O vento agora soprava frio e nos avisa da chuva, quando as primeiras gotas chegam, as inúmeras castanheiras, que margeiam toda a praia, nos abrigam até a nuvem passar. Naquelas areias resolvemos quase todos os nossos problemas, a sua energia nutri nossos sonhos e a cada passo uma nova ideia, uma nova palavra e muitos sorrisos.

De frente para o mar eterno, um livro a rouba de mim ... É o tempo necessário para eu silenciar a voz e abrir a minha mente ao mundo e criar minhas histórias, que por um acaso ou outro vão parar no papel em forma de palavras ou tinta.

Chegando a noite a friagem aumenta, mas é pouco para conter os jovens, que estão com os hormônios em ebulição. Entre eles o nosso Rafael, que sorri, fala e gesticula as alegrias da companheiragem e as aventuras da juventude. A fogueira na praia aquece ainda mais suas emoções e o vento frio noturno passa despercebido frente a seus corpos esguios e o cantarolar das músicas que animam a festa.

A manhã chega novamente, a leveza de nosso sono é quebrada pela pouca claridade e pelo cantar dos pássaros. A chuva fresca comum a estação nos embalam novamente e dormimos até mais tarde.

Ela ainda guarda aquele jeito de menina de quando nos conhecemos na faculdade, seu riso fácil é inconfundível e irrepreensível. Eu é que sempre me repreendo: porque buscar a felicidade, se todos os dias ela anda ao meu lado.


Marco Aurélio Moraes Rettore
31 de Julho de 2017

Comentários

  1. Esta crônica eu ainda não conhecia. Na minha opinião ultrapassa de longe qualquer declaração de amor. Simples e tocante.

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  2. Viver ao lado da mulher amada talvez seja um privilégio de muitos, fazer que ela se sinta assim que é a dificuldade.

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  3. Doçura, carinho, amor, são traduzidos nas suas palavras...

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