O dia da ressureição
O dia da ressurreição
Hoje amanheceu claro, aos poucos o céu de chumbo foi tomando
conta do dia e finalmente a chuva fez-se presente nesta primavera de clima
ameno e agradável.
Já era início da noite quando a palavra ressureição invadiu
meus olhos e contaminou meu espírito de forma inesperada. Meus pensamentos
foram longe, foram além dos 15 anos passados desde sua partida.
Era verão quente em Marathaizes, frequentávamos a praia do
centro, entre o Praia Hotel e a curva onde ficavam os barcos dos pescadores. Pegávamos
onda em pranchas de isopor e eu não tinha mais que 14 anos.
Eu adolescente e ele criança pequena e frágil. A tia sempre
o cercando de amor e aquele excesso de cuidado, comum para uma mãe que já havia
passado por muitos apertos. Franzino e friorento era uma dificuldade fazê-lo
entrar no mar. Eu rolando na areia molhada pelas ondas fracas fazia de tudo um
pouco para chamar a atenção daquele menino, que já neste tempo sorria fácil.
Nossa proximidade não tinha um por quê lógico, a diferença
de idade era grande, mas sempre fomos ligados, desde as brincadeiras de
super-heróis e alguns socos na barriga. O meu violão ainda carrega duas
pequenas mossas feita por uma criança, quem nem sequer sabia tocar, queria
brincar. Depois bem mais tarde trocamos apadrinhamento em nossos casamentos.
Tive ainda o grande privilégio de ser seu paciente em sua curta carreira de
médico.
Depois de adulto as nossas muitas prioridades nos afastaram,
mas a pouca convivência física nunca afastou nossos espíritos, tínhamos
presença constante, um do outro, em nossos pensamentos e corações.
Nunca tivemos tempo para falar da vida ou planejarmos junto
o futuro, ele vivia o presente. Ele vivia intensamente e era ávido por dar um
pouco mais de vida aos que o cercavam. Conhecidos ou desconhecidos ele sabia
amar.
A despedida foi fria, por entre uma porta semiaberta
visualizei seu rosto que ainda trago na lembrança e disse até breve - e não
poderia ser diferente. Acredito, que por vezes nossas almas se encontram e
conversam sobre a vida e o futuro, ou talvez apenas brinquem de Batman e
Super-Homem, corram atrás de bola e caminhem juntas pelas areias molhadas da
velha praia de Marathaizes.
Marco Aurélio Moraes
Rettore
Vitória, 26 de setembro de 2017
Vitória, 26 de setembro de 2017
Os amigos partem para longe dos nossos olhos, mas nunca se vão dos nossos corações!
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