O Relógio



O Relógio

O tempo era outro na velha Cachoeiro, ele era marcado por um antigo relógio que ficava na parede da sala de jantar da casa da chácara. A casa tinha um reboco áspero, pintada toda de branco, com aquele tom envelhecido.

O pé direito era alto e o relógio ficava lá em cima, longe das nossas mãos ávidas para tocá-lo. Lembro-me bem que vovô Mario subia numa cadeira para dar corda em nosso marcador de tempo.

O relógio ficava numa posição central, o seu tic-tac ecoava por toda a casa e o seu badalar nos informava as horas sem a necessidade de ver seu mostrador.

Todos passavam por ele ao entrar na casa e o reverenciavam com um olhar de respeito, nele todos podiam confiar. O tempo dele era único e marcava a rotina da casa e de nossas vidas de crianças travessas e lépidas.

A mesa de jantar era a sombra do relógio e no seu entorno existiam pelo menos uma dúzia de cadeiras e outros assentos para se apreciar boas conversas. Me recordo claramente de muitas pessoas que passaram por ali.

As visitas sempre eram de casa, o ambiente acolhedor atraia pessoas de todos os lugares. Eu costumava pensar que tínhamos a maior família do mundo. A vovó Idalina falava: “este é o fulano, filho do tio tal, que mora lá no sei onde”. Todos eram acolhidos da mesma forma fraternal e simples, assim era aquela casa, bem do jeito de meus avós.

E o relógio era a testemunha viva daqueles momentos, sempre ruidoso, como se também estivesse conversando com aquelas pessoas, e estava.

Hoje este relógio está na parede de minha casa e se recusa a funcionar corretamente, mas eu o compreendo, ele só gostava de marcar o tempo da velha Cachoeiro, o tempo da chácara.

Às vezes, como hoje, insisto fazê-lo funcionar. Ele com algum esforço ainda conversa comigo e me ajuda a escrever histórias como esta. Histórias da chácara que não existe mais. Depois ele volta a dormir e a guardar com ele histórias de muitas vidas.



Vitória, 17 de fevereiro de 2017
Marco Aurélio Moraes Rettore

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