Por aqui não passa ninguém de Cachoeiro
Por aqui não passa
ninguém de Cachoeiro
Em 1891, enquanto o navio Mentana singrava as águas ainda
calmas do Atlântico, por aqui quem dava as ordens era o Marechal Deodoro, a
república havia sido recém proclamada por ele mesmo e as espadas tomavam conta do
poder. Tanto que ainda neste mesmo ano, seu companheiro de farda, Floriano
Peixoto iria se tornar o segundo presidente do Brasil.
Era inverno e o vento devia soprar frio na barra do rio
Itapemirim, no dia 18 de julho de 1891 chegava ao porto localizado naquelas
terras Agostino Rettore, com 57 anos. Ele trazia em sua bagagem pouca coisa
além de esperança por dias melhores. Junto com ele sua esposa dona Catterina
Marangoni, de 45 anos e dois filhos pequenos: uma menina de 10 anos chamada
Maria Virginia e o pequeno Giovanni com 8 anos.
Não consigo imaginar o quanto foi dura e longa esta viagem.
Desde a saída da pequena comunidade de Borgoricco, província de Pádua, no
noroeste da Itália. O Brasil precisava de braços para a sua lavoura, carente em
função do livramento da escravatura e da má administração pública, que já era
comum desde a época do império.
Mas a viagem ainda não havia terminado para os Rettore, um
barco a vapor ainda os levaria pelo rio Itapemirim para o interior do estado e
em data que não sei precisar chegaram a cidade de Cachoeiro. Os imigrantes eram
alojados em um galpão, no local onde depois foi construída a fábrica de
tecidos, antes de serem conduzidos à uma fazenda para trabalharem na agricultura.
Não se sabe muito bem quando, mas Agostino Rettore faleceu
pouco depois de sua chegada, talvez devido as mazelas que se propagavam nos
navios e das condições pouco salutares que encontravam ao chegarem por aqui.
Restou a Nona Katina, como era chamada carinhosamente dona Catterina, à
condução da família.
O menino Giovanni abraçou o lugar como dele e logo Sante
Giovanni Rettore, como escrito em sua certidão de nascimento, se tornou João
Rettore. Nascido em 10 de março de 1883, tempo de guerra civil, em função da
unificação italiana, ele veio encontrar nas terras quase virgens da bacia do
rio Itapemirim o local perfeito para ser feliz e fincar laços de família.
Casou-se com a também Italiana Maria Facina, em 12 de maio de 1907 e a vida
começou.
Trabalhou como agricultor para algum fazendeiro da época e foi
até dono de “venda”, raiz comerciante pouco conhecida na família. Mas era a
agricultura sua grande arte, seu primeiro sítio foi lá em Cachoeira Alta, localidade
conhecida como Córrego de Sant’Ana. Dizem que estas terras ficavam entre as
antigas estações de Soturno e Cobiça da Lepoldina. Região agrícola que
circundava a velha Cachoeiro.
Por ali nasceram quase todos seus oito filhos, menos Elzira
a mais nova, com a qual compartilho a autoria destas histórias. O primeiro foi
Augustinho, que morreu de parto, como diziam na época, o segundo foi Dionizio,
que faleceu ainda jovem. Depois veio o meu avô Nilo em 1911, que eu imaginava
ser o mais velho, depois Elpídio, o alfaiate; Maria, a tia Mariquina;
Pertondina, a tia Dina; Hortência e finalmente a tia Zirinha, em 1926. Esta já
nascida na chácara da rua Amazonas, local carinhosamente conhecido como Buraco
do Sapo.
A propriedade da rua Amazonas é uma história a parte, filhos
e netos viveram infância e juventude por entre suas árvores, pomar, horta,
galinheiro e chiqueiro. Uma grande casa acolhia a família, parentes e amigos.
Eram quatro quartos, cozinha com fogão a lenha e uma grande sala circundada por
cadeiras e um grande relógio de parede que marcava o tempo da época.
A área externa era imensa, além da parte baixa, subia morro
acima até fazer divisa com as terras do meu também bisavô Alípio Gomes de
Moraes, onde hoje fica a antiga rua treze de maio. Depois veio a linha do trem da
Leopoldina e a chácara foi desmembrada e, talvez, parte desapropriada. Todos se
lembram da vida em profusão no entorno da casa: o pé de carambola era
grandioso, certamente o rei do lugar, mas tinha também manga, biriba e o pé de
abiu do vizinho, que era degustado pela criançada.
A horta era meio de subsistência, plantada com manejo
orgânico, ela era irrigada pelas águas do córrego que corria forte no fundo da
propriedade. Toda hortaliça colhida era vendida em grandes e pesados cestos
pelas principais ruas de Cachoeiro. Local de natureza bruta, cobras de grande
porte eram visitantes comuns ao local, inclusive adentrando a casa, mas a vovó
Maria as enfrentava com o cabo da enxada. O espirito valente e severo da vó era
conhecido por todos.
Seu João Rettore pouco estudou e trouxe da Itália um dialeto
difícil de entender e apesar das mãos rudes que a lida da roça o proporcionava,
tinha uma caligrafia impecável, de dar inveja a muito doutor. Gostava de contar
história e ria delas muito antes da conversa começar – era homem de riso fácil.
A fé cristã era outro compromisso levado muito a sério por ele, nunca faltava
as missas de domingo, sempre rezadas em latim e repetidas minunciosamente pelo
velho italiano, vestido com seu paletó de terno e camisa fechada até o último
botão.
Devoto de Nossa Senhora do Carmo, trazia um coração sempre
disposto a ajudar. Conta a história que por ocasião de morte de alguma “dama”
da Basiléia, por vezes ajudava nas custas do enterro, arrecadando um aqui e um
outro ali. Conhecido na cidade era dono de parte das terras onde hoje funciona o
Centro de Saúde, na época permutadas com a prefeitura.
Mais velho se apegou aos netos e gostava de recebê-los em
sua casa. Brincalhão e bajulador colocava as frutas para gelar no fundo do
córrego para os netos comerem bem fresquinhas. Deixava que dormissem em sua
cama macia, com colchão feito de pena e capim. Eu, bisneto, tenho uma vaga lembrança
da casa e do biso João. Do portão que dava para a linha do Rio e a descida de
terra que levava à porta da sala.
Mas João Rettore não viveu os seus últimos anos por ali.
Pelos idos de 1967 mudou-se para Volta Redonda junto com vovó Maria, em busca
de amparo para a velhice e as doenças que chegavam com a idade. Baixinho e
magro tinha uma força desproporcional ao corpo franzino. Mas agora havia se
transformado em outro homem, os olhos perderam o brilho de antes e a conversa
já não vinha fácil.
O desgosto de deixar sua casa foi muito grande, tanto que 10
meses depois ele deu um jeito de voltar. Em 19 de outubro de 1968 faleceu e
voltou para o lugar de coração e devoção. Lugar onde ele sentia o cheiro da
terra e de suas plantas. Onde era conhecido e reconhecido pelo trabalho,
simplicidade e humildade. Longe de casa ele finalizou dizendo: “por aqui não
passa ninguém de Cachoeiro”.
Marco Aurélio Moraes Rettore
Vitória, 06 de outubro de 2017
Obrigado você por acompanhar estas histórias do nosso "grande Cachoeiro".
ResponderExcluirEsta sua primeira crônica me emocionou e muito pois embora eu não seja uma RETTORI, sou casada com um... Conheci alguns dos membros da família e aprendi a gostar de todos, embora a distância entre nós não tenha permitido um maior estreitamento entre nós, infelizmente.
ResponderExcluirA leveza da sua "pena" e docura das suas palavras me encantaram!!! Parabéns, bjs da tia.