Um passeio no São Pedro



Um passeio no São Pedro

Era uma manhã fria de julho em Cachoeiro, ainda muito cedo o primo Enio batia na minha janela a fim de me despertar para mais uma aventura.

Havíamos combinado, na noite anterior, que naquele dia iríamos até a Fazenda de São Pedro. Eu não tinha mais que 14 anos, mas era autorizado pelos meus avós e pais para viver certas proezas.

Embarcados na carroceria da caminhoneta azul, dividíamos espaço com os engradados vazios de aguardente. Na boleia ia o tio Mauricio e seu ajudante, se não me engano chamado Mario, filho do ilustre Zé Pretinho, por quem meu avô tinha muita estima.

A viagem não era longa, talvez uma hora de sacode, pelas vias ainda de terra batida e alguma lama. Muitas paradas se fazia pelo caminho, em um ponto ou outro, o tio visitava seus fregueses e nós pulávamos juntos para descobrir as novidades.

Certa vez, numa destas paradas, num lugar chamado Prosperidade, fui interpelado por um homem negro alto e forte: “eu te conheço menino, você é o filho da Therezinha e do Hésio”. E era eu mesmo, bem distante de minha realidade e perto demais de minhas origens. Muito diferente dos momentos incógnitos que vivo hoje na cidade grande.

A estrada seguia margeando os rios e subindo as montanhas, a serra da Gironda era o trecho mais esburacado e difícil de transpor. O primo Enio era muito divertido e sempre falante, sabia o nome de todas as aves e bichos. Ele era meio caçador, ofício aprendido com o pai dele, coisas de antigamente.

Antes de chegar ao São Pedro passávamos em frente à Fazenda da Pedra Branca. Eu sempre olhava do alto da caminhoneta para ver se avistava o Tio Gélio, este sempre reclamava que eu não parava para um abraço. Este lamento vou levar eternamente comigo, como um elogio, ele com saudade da minha pessoa.

Chegando ao destino íamos direto ao alambique, lá me lembro do Zé Ovídeo, pessoa que me tratava com tão bem querer, que fica difícil eu explicar porque. Recordo das diversas atividades do lugar, a que eu mais gostava era ficar alimentando a fornalha com o bagaço seco da cana. Também passávamos horas onde se lavava as garrafas, neste lugar o Rio Fruteiras fazia um barulho encantador, que até hoje ecoa na minha memória.

Era um passeio obrigatório durante as férias. A magia do lugar e das pessoas que o cercavam são coisas inexplicáveis e que só tem serventia para mim. No fundo, minhas lembranças devem ter muito de fantasia, que só se tornam verdade, quando as coloco no papel e emociono outras pessoas.


Marco Aurélio Moraes Rettore
Vitória, 30 de março de 2017

Comentários

  1. Eu também já fui criança do interior... conhecida de todos da minha pequena PIRANGI - SP, sempre correndo descalça, descabelada, suada e vermelha de sol, que no era tão forte quanto o de CACHOEIRO!!! Lembranças de infância, que como as suas, afloram e nos tornam as mesmas crianças que nunca deixamos de ser... Lindas as suas recordações que com o seu talento parecem nos transportar aos seus tempos de menino...

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