Por Onde Passei
Por onde passei
Marco Aurélio Moraes Rettore
Curitiba, 17 de outubro de 2018
Sou nascido nas terras quentes as margens do Itapemirim.
Local de muitas pedras que encachoeiravam o rio e, o acidente geográfico
batizou a cidade.
Gostava de correr descalço o terreiro de terra batida da chácara
de meus avós. A minha vestimenta era um simples calção de tecido, feito em casa
pelas mãos hábeis de uma tia avó.
A simplicidade da vida era nossa maior virtude e o cheiro do
mato e da chuva era o ar que purificavam nossos espíritos de crianças.
Logo fui viver nas terras do vento. Quando vinha de nordeste
era garantia de sol e águas calmas. Ela, a água do mar era azul e gelada, a
salvação para o calor escaldante das areias. Nos raros dias que ele soprava do
sul, vinha a chuva e o pouco frio que se conhecia à época.
O local nobre era morada de índios e foi descoberto por
portugueses. Com a dificuldade de viver no lugar nossos desbravadores fugiram
e, o abandono batizou a cidade.
A vida passou a idade chegou e eu fui casar em outro lugar.
As ruas de asfalto e os grandes prédios tornaram-se meu lar. Lá o sol também
era de queimar e o refresco ao sufoco do dia, só vinha a noite com a brisa do
mar.
Tudo mudou, de garoto virei pai, e em terras frias fui
morar. Na metrópole das araucárias ouço o Sabiá Laranjeira cantar e o João de Barro
festejar a casa nova. Da janela vejo a chuva que agora cai e escorre decidida pelas
vias desconhecidas desde novo lugar.
Para onde vou não sei, quem sabe aqui é para ficar. Sei por
onde passei e, gosto de lembrar e chorar. Nas noites geladas os meus sonhos me
levam de volta a cada paragem por onde passei, lá encontro os que deixei e vivo
a promessa da volta.
Acordo e descubro que jamais retornei.
Curitiba, 17 de outubro de 2018
Cada lugar deixa um traço na estrada da vida.
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