Por Onde Passei

Por onde passei

Sou nascido nas terras quentes as margens do Itapemirim. Local de muitas pedras que encachoeiravam o rio e, o acidente geográfico batizou a cidade.

Gostava de correr descalço o terreiro de terra batida da chácara de meus avós. A minha vestimenta era um simples calção de tecido, feito em casa pelas mãos hábeis de uma tia avó.

A simplicidade da vida era nossa maior virtude e o cheiro do mato e da chuva era o ar que purificavam nossos espíritos de crianças.

Logo fui viver nas terras do vento. Quando vinha de nordeste era garantia de sol e águas calmas. Ela, a água do mar era azul e gelada, a salvação para o calor escaldante das areias. Nos raros dias que ele soprava do sul, vinha a chuva e o pouco frio que se conhecia à época.

O local nobre era morada de índios e foi descoberto por portugueses. Com a dificuldade de viver no lugar nossos desbravadores fugiram e, o abandono batizou a cidade.

A vida passou a idade chegou e eu fui casar em outro lugar. As ruas de asfalto e os grandes prédios tornaram-se meu lar. Lá o sol também era de queimar e o refresco ao sufoco do dia, só vinha a noite com a brisa do mar.

Tudo mudou, de garoto virei pai, e em terras frias fui morar. Na metrópole das araucárias ouço o Sabiá Laranjeira cantar e o João de Barro festejar a casa nova. Da janela vejo a chuva que agora cai e escorre decidida pelas vias desconhecidas desde novo lugar.

Para onde vou não sei, quem sabe aqui é para ficar. Sei por onde passei e, gosto de lembrar e chorar. Nas noites geladas os meus sonhos me levam de volta a cada paragem por onde passei, lá encontro os que deixei e vivo a promessa da volta.

Acordo e descubro que jamais retornei.


Marco Aurélio Moraes Rettore
Curitiba, 17 de outubro de 2018

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