O Quarto de Visita



O Quarto de Visita

Na minha casa tem um quarto de visitas, igual tinha na chácara de meus avós.
Sempre tive um fascínio por visitas, quando garoto gostava de ver minha avó receber os parentes e acomoda-los pelos quartos da grande casa.

Aquilo causava um movimento esplendoroso, as pessoas a conversar, contar histórias e trazer notícias de longe ou de nem tanto. Eu menino preferia ouvir, conhecer e aprender com as muitas vozes que frequentaram o lugar.

No quarto lá da sala ficavam os mais ilustres, que era o caso dos irmãos do meu avô, que vinham do Rio ou São Paulo. As janelas davam vista para o jardim e via-se o trem passar pela linha férrea cuja o destino era o Rio de Janeiro e, depois da vista correr toda a cidade, ao fundo estava o Itabira. Apesar de já ter dormido naquele quarto por diversas vezes, não era o meu favorito, lá fazia muito barulho.

O quarto do meio era o meu favorito, a janela dava para a horta e uma grande mangueira, que refrescava o lugar. Nas noites quentes de verão da velha Cachoeiro podíamos dormir com a janela aberta. O chacoalhar das folhas e o canto triste de um caburé, que as vezes passava por lá eram minha canção de ninar.

O quarto pequenino logo em frente a este também era muito legal, com apenas uma cama. Passei uma temporada por lá em 1984, foram meses de férias antes de começar a faculdade. Eram outros tempos, eu já rapaz.

Tinha o quarto da Dindinha, minha bisavó, primeira dona do lugar e falecida quando eu era bem pequenino. Grande suficiente para ter 3 camas, criado mudo, guarda roupa, cômoda e máquina de costura. Certa vez um enxame inteiro de abelhas se abrigou no gavetão do armário. A casa realmente recebia os mais surpreendentes hospedes.

Sempre bem-vindos, acredito que todos amavam o lugar. Era um porto seguro para quem vinha a Cachoeiro. Nunca faltava espaço, uma cama, e a comida da vovó. Era garantia de alegria, felicidade e aconchego. Era irresistível, todos sempre retornavam. 

Aqui em casa, como lá na chácara, o quarto de visitas passa a maior parte do tempo desocupado, mas cumprindo sua principal função, a da espera. Um quarto vazio ao contrario do que possa parecer é motivo de alegria e esperança. Vai chegar alguém.



Curitiba, 10 de dezembro de 2018

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